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DC/TMD - Um valioso instrumento na área da DTM

PUBLICADO EM 28/02/2020

Daniela Godoi Gonçalves

Especialista em Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial
Professora da UNESP – Faculdade de Odontologia de Araraquara - FOAr
Vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Reabilitação Oral – FOAr/UNESP
Presidente-Eleita do Neuroscience Group – Internacional Association for Dental Research (IADR)

 

Francisco José Pereira Junior

Doutor e Mestre pela Universidade de Lund – Suécia
Especialista em DTM e Dor Orofacial pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO)
Membro e Sócio Fundador da Academia Latino-americana de Dor Orofacial,
Desordens Temporomandibulares e Distúrbios do Sono (ALDOTS).

 

      As disfunções temporomandibulares (DTM) são definidas como um conjunto de condições musculoesqueléticas e neuromusculares envolvendo as articulações temporomandibulares (ATMs), os músculos mastigatórios e estruturas associadas. São condições altamente prevalentes no mundo todo, sendo as mulheres mais afetadas que os homens. Embora sejam condições principalmente observada entre adultos jovens (com 20 a 50 anos de idade), estudos recentes vêm apontando que crianças e adolescentes são frequentemente afetados. Seus principais sintomas são a dor (muscular e articular), limitações funcionais e sons articulares.

      O diagnóstico da DTM é essencialmente clínico e deve incluir anamnese e exame físico cuidadosos. Eventualmente, exames de imagem como tomografia e ressonância magnética podem ser necessários para o diagnóstico de alterações articulares. Em 1992, os pesquisadores Samuel Dworkin e Linda LeResche publicaram o Research Diagnostic Criteria for Temporomandibular Disorders (RDC/TMD). Como o próprio nome sugere, é uma ferramenta para uso essencialmente em pesquisas e que propicia uma avaliação sistematizada incluindo exame clínico padronizado e questionários. O RDC/TMD é um instrumento que segue o modelo biopsicossocial de avaliação e classificação da DTM, sendo constituído pelo Eixo I (diagnósticos físicos) e pelo Eixo II (aspectos psicossociais). A inclusão de avaliações psicossociais representou grande evolução já que levantou a discussão sobre o papel desses aspectos nos quadros de dor relacionadas à DTM, expandindo essa visão para as abordagens clínicas para controle de tais condições.

      Nas duas décadas seguintes, o RDC/TMD foi utilizado em um número expressivo de pesquisas científicas em todo o mundo. Isso foi possível graças à tradução do instrumento para 22 línguas estrangeiras, inclusive o português do Brasil. Essas traduções, realizadas dentro de parâmetros e metodologias bem definidos, facilitou a interação entre diversos centros de pesquisa espalhados pelos cinco continentes permitindo que a base de conhecimento sobre DTM atravessasse os domínios socioculturais, financeiros e de diversos sistemas de saúde. Para se ter uma ideia da abrangência do uso desse instrumento, entre os anos 1992 e 2019 foram contabilizadas 7240 citações ao termo RDC/TMD no Google Scholar, excluindo patentes.

      Ao longo dos anos e acompanhando sua ampla aplicação em pesquisas, o RDC/TMD passou por um extenso processo de validação e atualização. Esses trabalhos foram conduzidos em um esforço conjunto de diversos pesquisadores e instituições, liderados principalmente pelo Dr. Richard Ohrbach da University at Buffalo /USA, com intensa participação do Dr. Thomas List da Malmö University/Sweden, e dos membros do então International RDC/TMD Consortium Network, hoje denominado International Network for Orofacial Pain and Related Disorders Methodology (INfORM) (uma rede vinculada ao IADR – International Association for Dental Research). Em 2014, o Diagnostic Criteria for Temporomandibular Disorders (DC/TMD), uma atualização do RDC/TMD, foi publicado. 1–3.  

      O DC/TMD é também constituído por 2 eixos e tem como diferencial em relação ao RDC/TMD, a indicação de seu uso tanto em clínica como em pesquisa. O Eixo I é composto pelos diagnósticos: mialgia, mialgia local, dor miofascial, dor miofascial com espalhamento, dor miofascial com dor referida, artralgia e cefaleia atribuída à DTM. O Eixo II incorporou novos instrumentos já validados para avaliação do comportamento perante a dor, estado psicológico e funcionamento psicossocial. O Eixo II pode ser aplicado em sua versão resumida ou completa. A versão resumida é composta pelos instrumentos PHQ-4 (Questionário de Saúde do Paciente – que indica presença de sintomas de depressão),  GCPS (Escala de Dor Crônica Graduada), OBC (Lista de Verificação dos Comportamentos Orais), JFLS-8 (Escala de Limitação Funcional Mandibular-8 itens), além da ilustração para indicar a localização de dor no corpo todo. A versão completa inclui, além dos instrumentos já citados acima (com exceção do PHQ-4), o PHQ-9 (Questionário de Saúde do Paciente – que indica presença de sintomas de depressão com 9 itens), a versão completa do JFLS (composta por itens – JFLS-20), o GAD-7 (Desordem de Ansiedade Generalizada) e o PHQ-15 (ainda mais completo que o PHQ-9).

      O RDC/TMD e, mais recentemente, o DC/TMD têm sido amplamente utilizados e se mostram como os melhores critérios de diagnóstico para DTM ao longo dessas décadas. Certamente, o uso do DC/TMD em pesquisas ao redor do mundo todo deverá gerar a necessidade de revisões futuras. Recentemente, a versão em Português do Brasil foi publicada4. O trabalho de tradução e adaptação teve como líder o Prof. Francisco Pereira Junior, e como vice-líder, a Profa. Daniela Gonçalves. Sua aplicação no âmbito da pesquisa e também em clínica é altamente recomendável para que possamos uniformizar nossos achados com relação à DTM e às cefaleias atribuídas à DTM. O documento completo em português pode ser acessado no link: http://bit.ly/Br-DCTMD . Ainda, no mesmo site do INfORM, é possível acessar um vídeo que instrui sobre a forma correta de se realizar o exame clínico preconizado pelo DC/TMD.

      Esperamos que o acesso a esse importante instrumento possa estimular a fundamental interação entre os profissionais que atuam na pesquisa e na clínica com pacientes que apresentam condições dolorosas orofaciais e cefaleias.

 

Referências

  1. Schiffman E, Ohrbach R, Truelove E, Look J, Anderson G, Goulet J-P, et al. Diagnostic Criteria for Temporomandibular Disorders (DC/TMD) for Clinical and Research Applications: recommendations of the International RDC/TMD Consortium Network* and Orofacial Pain Special Interest Group†. J oral facial pain headache. 2014;28(1):6–27.
  2. Schiffman E, Ohrbach R. Executive summary of the Diagnostic Criteria for Temporomandibular Disorders for clinical and research applications. J Am Dent Assoc. 2016 Jun 6;147(6):438–45.
  3. Schiffman E, Ohrbach R, List T, Anderson G, Jensen R, John MT, et al. Diagnostic criteria for headache attributed to temporomandibular disorders. Cephalalgia. 2012;32(9):692.
  4. Pereira Júnior FJ, Gonçalves DAG. Critérios de Diagnóstico para Desordens Temporomandibulares: Protocolo Clínico e Instrumentos de Avaliação Brazilian Portuguese [Internet]. 2020. Available from: https://ubwp.buffalo.edu/rdc-tmdinternational/tmd-assessmentdiagnosis/dc-tmd/dc-tmd-translations/

Foto: Da esquerda para direita: Dra. Linda LeResche (criadora do RDC/TMD), Dr. Richard Ohrbach (Editor/Criador do DC/TMD), Dr. Thomas List (Co-criador do DC/TMD), Dr. Samuel Dworkin (criador do RDC/TMD), Dr. Chris Peck (então Presidente do INfORM/IADR). Foto tirada pela Dra. Daniela Gonçalves em evento de homenagem aos criadores do RDC/TMD por seus 25 anos de publicação, e do DC/TMD durante 95th General Session & Exhibition of the IADR - San Francisco – CA/USA, em Março de 2017.