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TERAPIAS COMPLEMENTARES PARA DOR DE CABEÇA

PUBLICADO EM 18/10/2017

Leandro Calia

Neurologista do Hospital Israelita Albert Einstein

Mestre e Doutor em Neurociências pela UNIFESP-EPM

 

INTRODUÇÃO

 

Os seres humanos sempre sofreram com a “dor de cabeça”, cujo termo médico é cefaleia. Há séculos, muito tempo antes de podermos contar com medicamentos para esse problema, contávamos exclusivamente com as chamadas “medidas não farmacológicas”. Histórica e sucessivamente, tomamos conhecimento de curas pela fé, encantamentos, rituais supersticiosos, sangrias, cataplasmas, trepanações (abertura de verdadeiros “furos” no crânio) para a saída de maus espíritos e outras medidas.

Atualmente, a ciência trouxe alguma luz às medidas não farmacológicas e, portanto, deixaremos de lado as crenças e questões espirituais, que não nos competem. Entretanto, o assunto é vasto, pois há diversos aspectos a serem comentados, já que muitos deles importam sobremaneira ao conhecimento da cefaleia, sabidamente uma condição multifatorial. Podemos citar: alimentação, sono, atividade física, controle comportamental do estresse, terapias físicas (Fisioterapia, por exemplo) e terapias psicológicas.

A melhor condução terapêutica dos pacientes com cefaleia, principalmente daquelas com formas crônicas (quando há 15 dias ou mais com crises dolorosas por mês durando pelo menos 3 meses ou mais) engloba, então, a atuação de um profissional qualificado por meio de uma abordagem ampla. Neste método deve constar programas de educação e orientação das pessoas quanto ao seu problema (como estamos fazendo aqui), acompanhamento minucioso, manejo de expectativas (evitando-se expectativas não realistas, que podem “sabotar” a melhora geralmente vista a médio e longo prazo, e não imediata, conforme o compreensível e justo desejo de todos), as modificações nos estilos de vida quando constatados como inadequados, as terapias físicas e psicológicas, além, é claro, dos medicamentos (Figura 1).

Figura 1 – Abordagem terapêutica ampla.

 

As terapias complementares e a abordagem por meio de uma equipe multiprofissional (Neurologia, Enfermagem, Fisioterapia, Nutrição, Psicologia, Educador Físico, Dentista), trabalhando de forma integrada, indiscutivelmente é a mais recomendada. Por isso mesmo, não hesite em questionar o seu médico a esse respeito, já que ele mesmo pode lhe indicar profissionais qualificados para lhe ajudar de forma correta, mesmo por que, infelizmente, esse assunto acaba sendo permeado por muitos mitos e falsos conhecimentos, disseminados de forma alheia à ciência e ao rigor da ética profissional. Nesse contexto, aqui podemos rapidamente citar:

  • Dietas “milagrosas”
  • “Alimentos vilões”, ou seja, a serem evitados por todos com cefaleia
  • “Diagnósticos simplistas”: “problema de vista”; “problema de fígado”; “sinusite crônica”...

Embora muito provavelmente, um número grande das pessoas com cefaleia possa se beneficiar, pelo menos em algum grau, de medidas não farmacológicas para a prevenção de crises, ou seja, no sentido de se evitar as crises de dor, as medidas não farmacológicas são de extrema importância em algumas condições mais específicas:

  • Frequentes e/ou limitantes efeitos adversos dos medicamentos;
  • Resposta insatisfatória aos medicamentos;
  • Fortes evidências de fatores desencadeantes das crises que podem ser evitados ou corrigidos:
    • Jejum e outros distúrbios alimentares;
    • Alimentos específicos – que necessariamente precisam ser identificados individualmente, não há alimentos “vilões” para todos!;
    • Privação de sono ou alterações do horário normal do sono;
    • Presença de comorbidades que naquele paciente claramente se relacionam à cefaleia: alterações posturais, cervicalgias, distúrbios emocionais e psíquicos;
    • Abuso de analgésicos;
    • Abuso de cafeína;
    • Mulheres gestantes ou lactantes;

Um instrumento extremamente útil para a melhor identificação de cada fator relevante a cada paciente é o chamado “Diário da Cefaleia”. Consiste em anotações sistemáticas, em uma agenda ou calendário ou por meio de aplicativos disponíveis gratuitamente na internet, das características das crises de cefaleia a cada dia que ocorrerem: local da cabeça acometido, intensidade da dor, duração, uso e efeito dos analgésicos, fator desencadeante da dor identificado ou suspeito naquele dia.

Muitas vezes, por ser a cefaleia uma condição maior do que “simples” alteração física ou psíquica, ou seja, por ser uma condição biopsicossocial, apenas mudanças de estilo de vida muito particulares podem realmente determinar um alívio satisfatório, com a abordagem de problemas estressantes do meio ambiente, profissionais, familiares e até mesmo comunitários.

 

TERAPIAS COMPORTAMENTAIS

 Algumas terapias comportamentais já foram bem estudadas e se mostraram úteis no controle e prevenção das cefaleias. Muito embora tais técnicas raramente sejam prejudiciais, elas também não são completamente inofensivas, envolvem custos e só devem ser empregadas por profissionais qualificados! São elas:·         Terapias de relaxamento; Meditação e Mindfulness: Técnicas que modificam as alterações fisiológicas relacionadas à cefaleia, reduzindo a excitabilidade das células nervosas e diminuindo a tensão muscular. Compreendem uma série de exercícios musculares e de respiração que promovem um novo estado de relaxamento e consciência.·         Terapias Cognitivas/Comportamentais: ajudam o paciente de forma individualizada a: 1) identificar os seus fatores comportamentais, fatores desencadeantes de dor e fatores ambientais relacionados à dor e 2) gerenciar estratégias para minimizar cada fator identificado·         Biofeedback: Técnicas de monitoramento por dispositivos especiais que permitem aos pacientes aprenderem a controlar suas respostas físicas à cefaleia.

 

OUTRAS TÉCNICAS

 Algumas outras abordagens não medicamentosas do paciente com cefaleia já foram relatadas como benéficas em alguns estudos, mas ainda com menor grau de evidência científica, graças a fatores que geralmente se relacionam à dificuldade de sistematização dos estudos. Mesmo assim, em face das evidências favoráveis, citamos:·      Atividade física adequadamente supervisionada;·      Acupuntura;·      Quiropraxia;·      Hipnose;·      Outras terapias físicas.