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DOR DE CABEÇA NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA

PUBLICADO EM 18/10/2017

Paulo Sergio Faro Santos

Médico Neurologista

Coordenador do Setor de Cefaleia e Dor Orofacial do Instituto de Neurologia de Curitiba

Preceptor da Residência Médica de Neurologia do Instituto de Neurologia de Curitiba

Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Cefaleia

Membro efetivo da International Headache Society

 

INTRODUÇÃO

 

Assim como nos adultos, a cefaleia (dor de cabeça) é um dos sintomas mais comuns na população pediátrica. É muito frequente as crianças e os adolescentes se queixarem de dor de cabeça e seus pais os levarem ao otorrinolaringologista, pensando em sinusite, ou ao oftalmologista, pensando que algum distúrbio de refração esteja provocando aquele sintoma. Porém, sabe-se há muito tempo que os principais tipos de dor de cabeça são aquelas primárias, onde a dor é a própria doença, ao invés das secundárias, em que a dor é apenas mais um sintoma de outra doença.

Dentro deste contexto, a enxaqueca é o tipo de dor de cabeça que mais se destaca pela frequência na população pediátrica e pela incapacidade (prejuízo escolar, social e familiar) que ela provoca.

 

ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS

 

A frequência de dor de cabeça na infância e pré-adolescência (< 12 anos) é de 54,4%, sendo 59,2% em meninas e 49,3% em meninos. A frequência de enxaqueca na infância e pré-adolescência (< 12 anos) é de 9,1%, sendo 10,5% em meninas e 7,6% em meninos. No Brasil, estima-se que 1,6% das crianças e pré-adolescentes possuam dor de cabeça crônica, ou seja, eles apresentavam dor de cabeça em pelo menos 15 dias no mês.

 

DOENÇAS ASSOCIADAS À ENXAQUECA

 

Sabe-se há muito tempo que crianças com dor de cabeça e enxaqueca sofrem mais de ansiedade e depressão que aquelas que estão não a possuem. Além de serem doenças comuns aos pacientes com enxaqueca, a presença dessas doenças (ansiedade e depressão) aumenta o risco de cronificação da dor de cabeça e enxaqueca. Crianças que sofrem com dor de cabeça possuem mais dificuldade de dormir e aquelas com enxaquecam apresentam um risco aumentado de apresentar síndrome das pernas inquietas.

Além disso, recentemente, pesquisadores brasileiros descobriram que crianças com diagnóstico de transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) possuem mais enxaqueca, que a população sem aquela doença, e vice-versa, os enxaquecosos apresentam maior risco de desenvolver TDAH.

 

DIAGNÓSTICO

 

Os diagnósticos são realizados com base na Classificação Internacional das Cefaleias, onde as dores de cabeça são divididas em dois grandes grupos: primárias (quando a dor é a própria doença) e secundárias (quando a dor é um sintoma de outra doença).

O que faz o médico pensar em dores de cabeça secundárias, geralmente é a presença de outras manifestações além da dor de cabeça, tais como: febre, tosse, diarreia, história de traumatismo craniano, confusão mental, perda de força em algum membro do corpo, alteração da sensibilidade, incoordenação motora, sonolência excessiva, crise convulsiva, etc. Nessas situações, o profissional necessitará de exames complementares (tomografia computadorizada, ressonância magnética, punção lombar, eletroencefalograma, exames de sangue), para então definir qual a causa da dor de cabeça.

Se a criança ou o adolescente não teve nenhuma dessas manifestações acima, há uma grande probabilidade da sua dor de cabeça ser primária. Em relação a essas dores, para a conclusão diagnóstica é extremamente importante que o próprio paciente ou seus pais definam suas características: lateralidade (de um lado ou dos dois lados), caráter (latejante, em pressão), intensidade (leve, média ou forte), duração (segundos, minutos, horas ou dias) e sintomas associados (enjoo, incômodo com luz e/ou barulho, lacrimejamento, coriza, pálpebra caída, etc.).

 

TRATAMENTOS

 

Quando se fala sobre o tratamento para as dores de cabeça, deve-se lembrar que há dois tipos: preventivo (faz com que evite os episódios de dor de cabeça virem) e da crise aguda (trata a dor quando ela já apareceu). Lembramos que o principal tipo de tratamento é o preventivo, seja com medicação ou apenas com medidas não medicamentosas. Porém, sempre associando com um bom tratamento da própria crise. O parâmetro para se indicar o tratamento preventivo, com uso de medicação contínua/diária, é de pelo menos 3 episódios de dor de cabeça no mês. Parece pouco, mas não é!

Diversas medicações podem ser utilizadas na infância e adolescência tanto com o intuito preventivo quanto para o tratamento da crise de dor de cabeça, entretanto o que se deve estimular é o tratamento não-medicamentoso, com mudança do estilo de vida.

Toda criança com enxaqueca deve ter uma rotina regular para o sono, realizar exercício físico aeróbico (se criança, brincar é o exercício!) e evitar alimentos que desencadeiem seus episódios de dor de cabeça. Além disso, nunca se esquecer de tratar outras doença que podem estar relacionadas com a enxaqueca, tais como: transtorno de ansiedade, depressão, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, bruxismo e obesidade.